sábado, 14 de dezembro de 2013

SINCERRO(SINCERRO!) - verbete glossario


Sou o homem da poesia
este que fala sozinho
com seus botões
com seus versos
pintados de signos,
pilhados em signos
com estofo de símbolos
em  escrita de escriba hipócrita
ou sendo sincero na senda
como o cerro e o sincerro
que encerra o certo na serra
na guerra, na terra.
O sincerro é para ouvir
por onde erro
o animal no cerro
e dentro do homem sincero
que se encerra no cerro
e vive inserto no sertão incerto
ouvindo o tilintar do sincerro(sincerro!)
o qual  ouviu e ecoou o profeta indignado
ante tanta ignomínia!...
- Ante a anta
e antares
por cima dos ares,
mares, gares...

Há, por certo e perto,
o homem da medicina,
o da cúria, da bazófia,
da incúria, do coringa...
o homem de boa-fé,
de fé, já de pé
ante o dilúculo
com lúpulo
e este que escreve solitariamente
ou para a solidão e solitude grafa,
glifa o glifo : o grifo e o hipogrifo.
Grafo, gravo, desagravo o grifo, o glifo,
mas não deixo de ouvir o tinir do  grilo
que estrila do mundo natural
algo de criatura escondida
a cantarolar ao criador :
estado estando à sombra da alfombra...
escabelo de belo cabelo descabelado
da Berenice com sua coma
e espargir pelo céu
véu vetusto não cerúleo.

Sob a marquise,
ombreando com a pilastra,
faço subir uma coluna de fumaça
( fumaça de fumo, tabaco)
pela coluna que sustem a mole da construção,
pois sou homem
e o homem não é homem sem artefato.
( O homem é o homem,
a mulher a mulher
com a língua da cultura na boca
e na mente aculturada,
cultivada, cultuada, culta, em culto,
com a língua mordendo os dentes
com a lenga-lenga da cultura
que nos torna ridículos e geniais,
sábios e tolos).
No caso, o artefato é um cigarro
que dá pigarro ao médico
o qual  cantarola, em sua barcarola,
o védico do médico,
seu mantra, sua menta,
em contraparte ao que sobe do nariz
em meu espantalho
enquanto empalho a palha
onde se enrola o fumo,
fruto do tabaco
a caminho das cinzas
que o penitente profeta judeu
espalhou pela cabeça
depois que rasgou as vestes
num gesto violento de indignação
ante tamanha injustiça e opróbrio
que é a comunidade humana
também denominada "humanidade"
( Entrementes, o fumo se enrola no fauno
e a fauna é escuna que navega na flora,
vela à mezena.
O homem, a mulher,
é a escuna e a mezena na escuna
ou fora do nado da nave :
peixe em terra,
no rio ou no mar oceano).

Manhã cinza,
amanha a manhã cinza;
maninha manhã
para manha de maná
que não tem por cá
não sei porque.
Já, até enjoá, manacá tem por cá,
para lá e para cá da sebe com o cheiro
a se doar jaca e jacaré
em ré na partitura
de dia cinza.
Digo que dia cinza é zinco do diabo
e em céu cinza, seu cinza,
também diabo acho;
mas vida cinza segue, chuva cinza má
bate na face do casario cinzento
sob os quais abrigo-me e abraso-me de gris
no grupo do grou
pelo campo do oleiro...
onde me agacho, fumo um cigarro
e olho a chuva cinza
porquanto sou o homem cinza
que o gris engrola na língua do grou e grua crua
enquanto evola meu ser em fumaça
de sonho que não vingou
nos caminhos dos ares
com pés de vento,
pés de araruta no ventre,
cabeça de vento
no pente
e rota ruta de fruta
que se furta
em furta-cor
para ser  frugal
e fuga do frugal
no frugívoro
que devoro
no ato do coro
do teatro grego
sem grego
ou prego
para martelo
da bruxa
ao pé da cruz
de Jesus
morto
no horto
e ortográfico
nos evangelhos
em exortação papal
na encíclica "Evangelii Gaudium"
de um puro Francisco
de límpido olhar franciscano
em Companhia de Jesus.
( "Meu olhar é  nítido..."
no girassol do campo e do monte,
pastor apaixonado,
eremita sem sua enamorada
- minha girassol
que gira até lua
no girar do girar
e girar...  do pião!, rufião...

ó rufião, vide rufião em zootecnia!).

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Ficheiro:Van Gogh Twelve Sunflowers.jpg

domingo, 3 de novembro de 2013

POEMA SUJO DE FERREIRA GULLAR - enciclopedia


Ficheiro:Cistrum ou Citola.JPG

O incompleto não existe
é meio
do caminho
metade
do caminhante
e da meta
do caminhão
em declive ou aclive.
( O caminho
é o próprio caminheiro,
o andejo,
mas não o adejo
da mariposa sem pejo
que vejo viajor).

O completo existe
E é o ser
em forma e pharma
vinculado ao amor
que une com sua cola
as partes incompletas
e inconclusas
num todo completo
complexo.
Complexão
que cobra
a cobra
de cabo a rabo:
ofídio anelado).

Dentro e fora do verbo
in verbis e logos
a completude
e a incompletude
urde trama
na imobilidade do ser
e não-ser
ou na volúpia por movimento
expresso no princípio
do pensamento heraclítico
bem como na superação dialética
retesada pelo pensar aristotélico
que tira e atira a flecha de Zeno, o eleata,
- do arco em paradoxo vergado
pronto e apto a alvejar a aporia
afiada na filosofia de Zenão de Eléia
a denegar o movimento.
( Heraclítico : heraclítico é 
Ferreira Gullar, poeta filosófico,
no "Poema Sujo,"
no qual pergunta por tudo
e nada firma e afirma
nem denega ao ser
nem ao não-ser dos eleatas,
mas vinca a água
do vir-a-ser
que perpassa rio, barca e barqueiro...
- vinca-a com quesitos
à montante e à jusante 
do rio que encontra o filósofo Aristóteles
a meditar na obra de Rodin...)

O cão é completo
mas ganha outro estofo de completude
ao se unir
na complexidade conexa
da cópula
do macho e da fêmea :
cão maior e cão menor
no céu mentor de luz
acasalados.

Canis Majoris e Canis Minoris
no arco dado abobadado do céu
cava uma cova
que é uma veia cava
e um veio de ouro
- ouro de não tolo
ouro de sábio
ouro de vida
com vida
que deixa quedar semente
ao inspirar e expirar
no oboé
em boca que é
para oboé
enunciar solenemente
o princípio
e o príncipe
bem-nascido menino
nos Jardins da Hespérides
que respira e alimenta o fogo
em usina existente na planta da vida
da engenharia e arquitetura
dos gênios telúricos
que habitam os verdes na clorofila,
leito, leite e mel da vida
que, todavia, também
enterra no ventre da terra
para a morte
e o renascimento
o animal e o inseto
cuja planta da vida
feneceu no androceu e gineceu
do vegetal sistema de inteligência vital
do animal e da planta
pois este é seu
meio de vida
em meio ao ambiente,
no abraço acolhedor do bioma
que nos ama
tal e qual mãe e amada.

A semente é porção,
poção, princípio do jângal;
metade do caminho
na bifurcação que leva
do vegetal ao animal :
flexão de bem e mal
se há tal e qual
apartado da doutrina de Maniqueu;
coito de gineceu e androceu,
acasalamento de macho e fêmea no cio,
amor apaixonado
- de homem trovador
e mulher encantada
a ouvir  suas cantigas de amor
ao som do alaúde ou cistre(cistre!).
Cítola.

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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

ALAÚDE, ALAIDE, PARA A ELEGIA DE MARIA DE LOURDES GRIBEL!




Corpo hirto em um esquife :
esta uma definição de morte
( ou da morte?!);
não um definir somente,
mas um definhar também
com rumo de demonstração :
ciência cênica do deus Thanatus
versus ciência cínica do homem do vulgo,
vulto transtornado em médico e monstro
na perde iluminada à vela.

Alaúde, Alaide, para a elegia
de Maria de Lourdes Gribel, minha mãe!

Um ataúde
não é uma alaúde.
O alaúde é um instrumento melódico
da família dos cordofones :
a música do alaúde
cabe na ala do mel,
por isso melodia,
de-dia e noite-e-dia.
O ataúde que, no árabe grafado,
também aponta para a substância da madeira,
matéria em celulose,
é feito para guardar morto
desatado do contorno melódico,
mesmo o mais módico
que chega  a beirar
o beiral do silêncio,
o qual pede um cantochão
distantes algumas jardas de mosteiros,
algumas abadias dadas em côvados covardes
e conventos que há de convir
são cenóbios,  casas cenobiais,monastérios,
lugares para vida contemplativa
para aqueles monges com face de terra
e aquelas monjas que amam a Deus
e por  Deus amados e amadas são,
no são e no sal da vida sã, santa.
( O alaúde tem abelhas
tecelãs terceiras da ordem das avelãs
e  do mel da lã melódica,
lânguidas, longas melíferas...
O cântico do alaúde
que eleva a alma da minha mãe
ao espírito que se esvazia
nos foles de Deus, do céu,
os  quais se expande em pulmões
com a música da sanfona ou acordeão
que acorda o acordo
na corda musical do pacto
que  senhor mandar sangrar
para poder assinar
com o sinal de sina do arco-íris
que conta ariris
pelo grito nos céus
e telhados gris
que rebaixam anis
ao nível dos homens vis).

Alaúde, Alaide, para prantear
o passamento de minha mãe,
 Maria de Lourdes!

Entrementes, se é a  vida da minha mãe
que me escapa pelas frinchas dos dedos
no tempo serpenteado pelas areias,
no período das águas,
nos instantes de luz,
que fazer e quem instar?!
A que deus?!
A que lua, a que loa?
Posto o morto
a que porto
irá atracar?
Em que porto soçobrará?!...
Posta a morta
a que porta
baterá?
A do batel?!...

O ataúde atou o corpo
de minha mãe
e o arrastou "redemoinhando"
para os subterrâneos
onde há Hades
e há-de haver catacumbas,
rio Estiges, barcas e Carontes.
O ataúde tocou-lhe a alma
que subiu aos céus
para encontrar um reino
todo dela,
todo de mãe,
pronto à espera
de sua soberana,
desde o rasto na areia
dos pés do primeiro tempo.

Mas se haverá céu e céus
nas acepções das palavras
para além dos azuis,
 o que não haverá,
 senão todo o impossível?
Eu não acredito em céu,
em mar ou em luar;
os deuses saem de mim
assim como as ervas da terra,
as víiboras das tocas;
Deus deixa a caverna
que tenho dentro de mim;
sai silente com  o querubim e o serafim
da sua comitiva divina,
com seu séquito angélico,
tal qual saem corujas,mochos e morcegos
de seus valhacoutos.
A única fé que tenho,
trago-a em mim;
a única razão em que creio
e com a qual mensuro e conto
está dentro de mim :
o resto é xarope de groselha
para inglês beber.

Minha mãe faleceu
mas metade do corpo dela
( corpo vem com água de alma e alga,
espírito de fogo)
foi deixado de legado vivo
em meu corpo,
pois a outra metade do meu organismo
pertence ao meu pai,
continuando, pois, o casamento deles
a viger dentro do meu corpo.
No que creio
é que minha mãe
que acaba de falecer
tem uma metade em mim
que a morte não pode levar
nem com seu exército bilionário de bactérias :
metade do corpo
( e no corpo vai alma em água
e espírito em fogo)
ela me deixou de legado vivo :
metade do corpo que fora dado a ela
na herança genética.
Na outra metade do meu corpo
vive meu pai,
ambos casados
em corpo, alma e espírito
dentro de mim!

Do exposto, depreende-se que a metade
que foi pasto das bactérias comensais
pertencia a ela
- que teve que morrer pela metade,
pois a morte não se completa
senão depois de largo ciclo de vida
quando a outra metade morre
em todos os filhos e netos,
bisnetos,  tataranetos...
- e vai gerações! quase sem fim
a cavaleiro do fim.
 Ficheiro:The musicians by Caravaggio.jpg
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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

CELÍACO(CELÍACO!) - nomenclatura enciclopedia


Mãe amava jardinagem e... - amava minha avó,
que era a mãe dela,
bem como seus filhos
(seu marido?!) e a poesia
de Casimiro de Abreu, Junqueira Freire
e Álvares de Azevedo :
três ultra-românticos poetas
e um árcade conjurado
abaixo pescado.
 
   
Mãe recitava de Alvarenga Peixoto,
o conjurado árcade ,
o poema, que escrevera no cárcere,
na Ilha das Cobras,
o requintado intelectual lançado às traças
por sua participação na conjuração mineira.
O poema... - ei-lo em parte,
na parte que parte o coração:
"Bárbara bela
do norte estrela
que o meu destino
sabes guiar,
de ti ausente,
triste, somente
as horas passo
a suspirar.
    Isto é castigo
que Amor me dá".
 
 
Mãe cozinhava mui bem:
galinha à cabidela,
empadas deliciosas
( nunca comi similares
- ou só mordisquei similares!)
e outros tantos acepipes, quindins...
(" Isto é castigo
que Amor me dá".)


Mãe saía à rua
acompanhando, acompanhada,
em companhia de todos os filhos
ainda crianças, que então eram sete :
Osvaldo, o caçula,
viria pelo vento do cavalo com venta
na trombeta soprada por anjo rechonchudo. 
( Isto não foi castigo).

 
O povo que a via
na via expressa 
com a feliz prole
comparava-a à galinha com os pintainhos
ou a "escadinha", o time de futebol...
 
 
Íamos Ícaros (Ícaro!)
com destino à casa de sua mãe,
nossa senhora avó 
do tempo em que fomos gerados
quase nos gerânios que mãe plantara
por toda a parte vinculando com amor
o imaginário ao real, mesclados,
em clados...
Ecletismo, miscelânea, cladismo...


Mãe cantava canções maviosas
e seu canto santo - materno e terno
era melhor do que o melhor grupo musical do mundo:
- The Beatles :
 The Beatles de sublimes baladas!
( Besouros, escaravelhos, rola-bosta,
vira-bosta, coleópteros).
.


Mãe fazia tudo
- e era tudo que havia,
tudo quanto havia
( só de de ave era : tiê sangue, tiê preto,
cardeal( "Paroaria coronata..."):
era tudo isso sem erro)) :
dela não havia ausência
nem nas penas dos seus gansos
( onipresente é a mulher);
enquanto meu pai 
apenas aparecia de coadjuvante
e de preferência ébrio e furioso
tal qual um Ludovico Ariosto
 que recitava o poema
"Orlando Furioso"
cuspindo marimbondos.
(A atuação do pai é sempre a de um bufão
- embriagado!
Pobre de mim
que fluí assim
pela água do rio
que untava meus pés
no banho de língua lambida
do cachorro carinhoso:
O arroio  rumorejante é um cão
com todo carinho de mãe
em dedicatória loquaz).
  Por certo que "isto é castigo
que Amor me dá".


Ora, se insto em frisar
que mãe fazia e acontecia,
em tempos  de paraíso,
à luz edênica,
ou no Jardim das Hespérides
ou na Casa de Filosofia de Epicuro,
denominada o Jardim por aquele sábio,
não é porque ela já esteja morta;
mãe ( Mãe!!!... grito e a noite me devolve 
o silêncio sem mãe,
a calada da noite 
com a esposa surda 
em seus afazeres domésticos, coitada!:
ela tem a árdua tarefa 
de ser mãe para outros filhos,
outra rainha, outra deusa
para pequeninos chorões
ou enormes preguiçosos
- os meus filhos, mais dela,
que tudo é mais da mulher
e muito menos do homem,
o fanfarrão bêbado).
Mãe continua viva,
esbanjando saúde,
porém ferida pela idade provecta,
na qual muitos sofrem do mal de Alzheimer,
pena sob a máscara teatral 
que caracteriza a personagem de Alzheimer
em peça dramática que um médico escreveu
para os demais colegas representarem 
nas faces do pacientes
meros atores no exercício da doença,
dentre outros males que teimam em abundar,
a desdenhar a ciência
em sua estúpida e estapafúrdia presunção
( O sábio Alzheimer
que escreveu a tragédia grega
para ópera médica,
leu-a na face do macróbio
que, se sobrevivermos ao boom da vida,
poderemos poderosos, qual o truão,
 ter que representar
a tragédia do estro do douto Alzheimer).
( "isto é castigo..."
que Deus não mo dê!).
 

Mãe, canto sua alegria antiga assim,
que era minha felicidade de antanho,
não num tom elegíaco ou ditirâmbico,
mas com ordem de ode
eivada de nostalgia,
pois fica claro que nós, - todos!,
os maus filhos, que somos, - todos tolos!,
péssimos e ingratos seres humanos,
tratamos o outro ser humano,
no caso até a mãe,
não com respeito, carinho e amor,
nem com qualquer laivo de caridade
que ultrapasse o que é  mero verbo 
em lábios mendazes da barregã,
mas com desdém,
porquanto mesmo em se tratando de nossa mãe,
pessoa de proa de nossa vida,
que todo o amor semeou e doou para nós,
que nos embalou e consolou com carinho,
bálsamo que nunca mais usufruímos;
não obstante isso e tudo o mais
que não ouso narrar
por vergonha de constatar que tanto amor
teve o retorno de tanta indiferença,
pois  passamos  tratar nossa mãe,
que é a nossa vida,
como se morta fosse:
- tratamo-la como mula e trator que somos,
Massey  Ferguson,
- tratamo-la como se ela fosse
um jazigo vivo,
um túmulo aberto no peito
- da dor maior,
que é um dó maior...
que rasga e fere gravemente
- até nossa maldade infinita!
  Isso grito de mim
e sou meu crítico severo.
Mas a vida é assim 
e assim seremos todos tratados
pelo tratorista do dia
que sai para rasgar o ventre da terra:
roubar a terra para outrem
que lhe ordena a roubar
na doutrina da lei
dos escribas hipócritas
que o somos escrevendo.
Ó copioso amanuense!:
"Isto é castigo
que Amor de dá".
 

Mãe, não é verdade, ó mãe,
que ainda me escuta daí
mesmo com a baixa umidade no ar
que mal me faz respirar?! 
Mãe, que  faz o oboé expirar
na melodia do luar
e suspirar ao se lembrar
do poeta Inácio Quinaud,
do qual, ela, minha mãe,
narrou-me o drama,
a tragédia que terminou em suicídio! 
( O poeta vive sob a pressão do front,
da casamata, da taberna, da caserna, da Cúria...)
e do que suspira na lira da brisa
o árcade inconfidente:
"Isto é castigo
que Amor me dá".


Mãe,
que deixa pendoar o perdão
 para este filho impenitente, a este,
ou quem sabe no zênite, nadir... a oeste...
- este filho  sem sorte e sortilégio no norte
que precisa de muita penitência filial
à maneira do profeta Oséias.
Todavia, mãe, 
- a minha mãe!, 
não me cobra que eu espalhe 
um punhado de cinza na cabeça,
cilício e vestes de saco use
e abuse  como Deus quiser
- se quiser pela "Opus Dei", pois
"Isto é castigo 
que Amor me dá".
 
 
Mãe pode ter morrido para a poesia
do sublevado Alvarenga Peixoto
como morreu para muita coisa;
porém nós, mesmo em criança,
morremos todas as noites
e acordamos com a aurora
para que venha nos acordar
no fuso do dilúculo,
na lua embrulhada em teia de aranha,
toda branca, pálida,
pois todos somos roubados e furtados
de células, acervos de memória,
dentre a infinidade da riqueza
que foi e é nosso tesouro na vida,
sempre surripiado, bifado tesouro,
sem que nos socorra
o Código Penal Brasileiro
ou as leis internacionais
que berram e ladram,
mas somente põem o ricto do sarcasmo
em lábios entreabertos num sorriso irônico
do ladrão, que não é cão,
nem ladra feito um canino
- e também a ferida da berne
no boi,  vaca,  bezerro,
os  quais ruminam e berram,
erram pelo pasto vasto,
carreando a berne a mosca varejeira,
a fim de que o abençoado pão de cada dia
chegue à mesa do médico  veterinário
que  também merece sobreviver
e se alimentar de glúten,
caso não seja celíaco(celíaco!).
( "Isto é castigo
que Amor me dá").

Outrossim, além de não permitirmos
 paz aos vivos,
nem à nossa amada mãe,
em seus dias turvos
nos quais vê quase que tão-somente
o Ancião dos Dias
debruado nas madrugadas 
ouvidas em madrigais
e cheiradas em madressilvas,
- nós os irrequietos 
não deixamos nem os mortos ao limbo:
estão sempre nas nossas digressões,
visitam-nos em sonhos 
e os visitamos em cerimônias anuais,
se não dialogamos com eles 
escritos sob os signos,
afogados sob montanhas de signos
em livros, cartas, obituários, inventários, epitáfios
que são "proclamas" do mal-do-século,
em "Confissões" de Alfred de Musset 
e na vida extravagante de Lord  Byron,
um dos maiores poetas de Europa,
que jaz na Igreja de Santa Maria Madalena
em algum lugar da Inglaterra

de João-sem-Terra
e Ricardo Coração de Leão.

Em algum lugar
da terra de mãe
( terra em mim)
há uma rua simples e torta
com a porta aberta à lua morta

nos olhos do poeta Inácio Quinaud
morto
- como seremos sob sereno
 um dia, noite ou madrugada
 quando já não estaremos
íntegros sob o culto ao luar
na Rua Inácio Quinaud
que escura cura que escuta
o canto da cachoeira
 entrar nos seus casarios
- ouvidos do rio
com martelo e bigorna
( "isto é castigo 
que Amor me dá").

( PARA O LIBRETO "RECOLHA DE POEMAS E BALADAS PARA A RUA INÁCIO QUINAUD,
ESCRITO PARA O BALÉ E  A ÓPÉRA :"MÃE NO PAÍS DO "NONSENSE" COM SUAS  FILHAS ALICE MULTIFACETADA").

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